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A Mulher e a Natureza

“O eterno feminino pode tornar humano ao Divino.”

“Sem a mulher, a vida é pura prosa...”

Ambas as frases pertencem ao escritor nicaraguense Ruben Darío, cuja data de falecimento completa cem anos, neste ano de 2016. Expressivo poeta que era, trata do eterno feminino, mas isso ecoa estranho aos nossos ouvidos, desacostumados a falar de “eternidade”, em meio a tanta coisa perecível e descartável.

Ao longo da história, muito se falou e muitas vezes se representou este símbolo do eterno feminino, da mulher como cúmplice da vida no ofício de ajudar a própria vida a se multiplicar, ou seja, a grande e a pequena mater seriam amigas íntimas e mesmo parceiras.

Bem, mas um outro atributo de nosso tempo é que nada é entendido de forma simbólica, e sim de maneira muito (excessivamente até) explícita; assim, corro o risco de que me critiquem por associar o eterno feminino à maternidade; isso é verdadeiro e falso, simultaneamente. Contrariamente a certos estereótipos sociais, eu verdadeiramente não creio que as mulheres estejam obrigadas à maternidade, nem que aquelas que não o fazem estejam cometendo algum tipo de erro ou mereçam críticas de qualquer espécie. Respeito e defendo que se deve respeitar tanto as que optam pela maternidade, quanto as que fazem o contrário, sem que o chamado “eterno feminino” perca nada com isso.

Não dar a luz no plano físico é uma opção que deve ser respeitada; agora, não dar a luz em plano nenhum... honestamente, não acho tão respeitável assim. E aí sim, penetramos no terreno do eterno feminino.

A natureza como um todo possui uma receita de combinar diferenças que é maravilhosa. Toda vez que vemos algo belo, significa que a natureza conciliou inúmeras cores, sons, texturas etc, e produziu harmonia. Soube iluminar as diferenças de forma positiva, gerando o encaixe perfeito, ao invés do atrito e da rejeição. Não quero dizer com isso que todo atrito seja negativo; por vezes, pode ser extremamente necessário e educativo, até... Mas, ante um atrito, todos ficamos esperando, como numa melodia, que a dissonância se resolva em um acorde harmonioso. Dissonância eterna, desacordo, ruído sem melodia... algum segredo da natureza está sendo ignorado aí, e, com isso, a própria natureza é a primeira a sofrer, incluindo nisto, logicamente, a natureza humana.

Saber dar luz, saber harmonizar, poder deixar um rastro de conciliação, de potencialização das partes, de beleza: eis o eterno feminino. Segundo o poeta, sem a mulher, a poesia não nasceria: teríamos apenas prosa, talvez informativa, talvez útil, mas sem aquele atributo de musicalidade e de transcendência que as palavras adquirem quando se enlaçam em poesia, imitando a Vida.

Ao entender isso como potencial, como patrimônio próprio, legado pela natureza, as mulheres poderiam encontrar muito mais facilmente, eu creio, soluções para a desarmonia entre suas emoções, na tão falada instabilidade psicológica; para a desarmonia com os homens, na tão discutida “guerra dos sexos”; para a desarmonia entre os seres humanos, na tão dolorida carência universal de fraternidade. Quer algo mais luminoso, mais poético?

A antiga tradição do “eterno feminino” não defende a ideia de que as mulheres são diferentes dos homens, mas sim de que todos os seres do universo são diferentes uns dos outros, como diria Aristóteles, e que a felicidade dos seres consiste no conhecimento e na realização de suas identidades. “Sê quem és, sabendo”, dizia o poeta Píndaro (para concluir com outro poeta). E só quem nada conhece de luz, de poesia e de beleza poderia considerar menos do que um privilégio servi-las como missão e como dever, por natureza... e pela Natureza.

 

Poesia da professora Lúcia Helena Galvão

Conheça mais em: www.luciahga.blogspot.com