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Lindo artigo do professor Jean Cesar, vejam...

felicidade

 

A Felicidade

Olhando para o nosso mundo, e analisando estatísticas de saúde, violência e dos muitos males sociais dos quais padecemos, alguém até poderia se questionar se a felicidade realmente existe.

A maioria das pessoas acredita que a felicidade é uma condição a ser alcançada no futuro, como resultado da conquista de uma série de bens, tangíveis ou intangíveis, que podemos ir acumulando e mantendo ao longo da vida. Esses bens vão ser bastante variáveis, tais como saúde, família, riqueza, beleza, poder, status, fama, sucesso, e muitos outros.

Mas será realmente necessário conquistar tantas coisas para ser feliz? Hoje somos cerca de 7 bilhões de pessoas na Terra. Quantos destes poderiam ser ricos? Ou famosos? Quantos podem alcançar os padrões de beleza ditados pela moda? E quanto à saúde, podemos garantir sua manutenção?

Para todas essas perguntas, basta algum tempo de reflexão para sabermos que a resposta é não, nós não podemos conquistar tudo isso. Estudos científicos têm demonstrado que é impossível que muitos sejam ricos, sem com isso comprometer seriamente os recursos naturais.

E todos nós sabemos que não há riqueza que possa garantir nossa saúde indefinidamente. E também sabemos que em nossa sociedade, várias pessoas, apesar de terem conquistado quase tudo que se diz necessário, não são felizes.

Poderíamos então acreditar que viemos à vida sem um propósito maior? E que estamos fadados à busca de uma quimera, uma fantasia? E que apenas alguns poucos afortunados teriam a dádiva de uma vida feliz?

Nosso bom senso se recusa a aceitar tal conclusão por muitas razões, mas há uma razão acima de todas: a maravilhosa ordem do Universo e da Natureza.

Esta é uma ordem que nos indica para onde tudo se direciona, e nos faz intuir que tudo isso não pode ter sido feito pelo acaso, mas que, ao contrário, constitui a prova mesma de que há um princípio maior.

Toda a natureza está marcada pela busca da perfeição, e a percebemos ao estudar a incrível ordem na constituição das formas, tais como átomos, moléculas e sistemas planetários, ordenados segundo infalíveis leis matemáticas, e a mais pura estética geométrica.

O Universo busca a perfeição, e tudo na natureza está em constante processo de aperfeiçoamento. De formas primitivas e rudes, vemos criaturas e sistemas evoluindo para estruturas cada vez mais complexas, organizadas e belas.

E estaria o ser humano à parte de tudo isso? Isso também não é admissível, pois se tudo possui um papel na natureza, e se cada coisa tem seu lugar na existência, como poderíamos nós estarmos à parte de tudo isso? Então também devemos ter um papel, temos de ter um propósito em nossas vidas.

Não viemos à vida pela coincidência de um acaso fortuito. Viemos por um propósito. Viemos com uma missão, a grande missão, a mesma denotada e perceptível na Natureza ao nosso redor: a busca da perfeição.

E não é de estranhar que tem sido esse um sonho de quase todos nós, que estamos sempre esperando esse momento futuro em que tudo estará de acordo aos nossos maiores anseios.

Mas infelizmente, por ignorância, projetamos nas coisas, projetamos fora de nós, esses sonhos augustos que nos embalaram a infância e nos fizeram viver momentos de encantamento (e agora eu era o herói...).Sonhamos com coisas perfeitas, amigos perfeitos, um par perfeito... Sonhamos com um conto de fadas.

Mas ao crescer, e ao não conseguir encontrá-lo, muitos se frustram, e acabam por desistir da busca, caindo na inércia infeliz de uma vida sem sentido, uma vida sem propósito, uma vida sem mística, uma vida sem mistério.

É que talvez, busquemos a perfeição onde ela não depende de nós e, portanto, não é possível alcançar.

Disseram os grandes filósofos, como Platão, que todos nós temos um Arquétipo, um modelo perfeito de nós mesmos que se encontra em um mundo celeste. E que nós devemos buscá-lo por toda a vida, tornando cada experiência que vivemos num exercício na construção desse modelo arquetípico.

Não seria essa a origem de nossos sonhos mais puros? Os sonhos da infância? Os sonhos heroicos que hoje só vemos no cinema (ou nem isso)?

Então, o alvo de nossa busca não está fora. Ele se encontra dentro. E a perfeição almejada, não pode ser a das coisas ao nosso redor, mas a do ser humano que habita em nós, que à medida que se aproxima de seu arquétipo, à medida que cumpre com sua missão, se torna expressão, como diria Platão, da Beleza, da Bondade e da Justiça, transformando tudo ao seu redor, tornando o mundo melhor.

Temos exemplos assim ao longo da história. Exemplos de grandes mestres que nos mostraram esse caminho, e nos ensinaram que a Felicidade, é o prêmio daqueles que, mesmo em sua humana imperfeição, estão cumprindo com esse grande propósito.

 

Jean Cesar Antunes Lima

Professor de filosofia em Nova Acrópole

 

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correndo-contra-o-tempo

Hoje temos um artigo especial da professora Lucia Helena Galvão. Acreditamos que o tema é bastante familiar para muitos de nós, a "correria" do cotidiano.

Tanta pressa...

Mais uma manhã, tarde e noite, indo e voltando, com carros que passam voando por mim. Um dia, minha filha me falou que as pessoas deveriam colocar o número do seu celular no vidro... “- Para quê, minha filha?”, perguntei, sem captar o tom levemente irônico na voz: “- Para ligarmos e sabermos se deu tempo, mãe! Deve ser muito urgente o que ele vai fazer!”

É verdade; deve ser mais do que urgente: deve ser desesperador. Sem bairrismos, Brasília deve ter alguns dos mais belos amanhecereres e crepúsculos do mundo; sempre se pode ouvir algum sabiá dobrando o trinado, pelo caminho; sempre se vê algum cãozinho desocupado rebolando de barriga para cima na grama úmida (deve ser muito bom, isso!). Mas nós....temos pressa.

Não vou aqui delinear o óbvio, que todos já preveem: a maioria absoluta não tem pressa nenhuma. Correm para a televisão, para a mecanicidade, para o sono, para a solidão. Não há alvo a alcançar com essa correria; em geral, nada que seja urgente ou que tenhamos sabido tornar importante.

Depois de anos sem entender e nem mesmo me perguntar pelas razões disso, acabei convidada, pelas circunstâncias, a uma resposta. Numa estrada vazia, um caminhão seguia a uns 40 ou 50 km; coloquei minha seta e o ultrapassei, como de praxe. Porém, ao passar ao seu lado, seu olhar me chamou a atenção: era raiva incontida que havia ali, era frustração, como se eu o humilhasse ao ultrapassá-lo. Numa descida, ele embalou seu caminhão e me passou a mais de 120 km, num lance que, mais que excesso de velocidade, demonstrava triunfo e vingança.

Esse motorista me fez prestar atenção a este fato tão simples e cotidiano: ultrapassagens. Percebi que não se trata de pressa propriamente dita, mas de afirmação pessoal. Todo ser humano necessita de seu “minuto de glória”, de vitória, de superação de algo; no vazio de uma vida banal e sem objetivos, eu me afirmo superando o carro à minha frente; provo a ele, por um minuto, que sou melhor motorista, que tenho melhor carro, que sou especial. “- Passar na minha frente? Que desaforo! Está pensando o quê?”

É claro que esta competitividade selvagem que tanto nos escraviza não deve se mostrar apenas aí; este é apenas o seu momento de exibição mais ridícula (ou não?). Sem fôlego ou musculatura moral para superar a nós mesmos, sem vida interior para nos alimentarmos de alvoradas ou de crepúsculos, sem sonhos nem objetivos maiores, vivemos numa marcação palmo a palmo contra aqueles que passam por nós. Sempre “contra”, e não “com”. Sempre sozinhos... e correndo para o nada. Não importa o destino, mas chegar primeiro; e se o destino for um abismo?

Que insólito... os corredores compulsivos são, na verdade, sedentos compulsivos, querendo, inconscientemente, chegar a um lugar ao qual não se vai de carro: ao fundo de si mesmos, para encontrar seus sonhos, para alcançar um sentido maior e real para suas vidas. Concordo: isso é urgente, mesmo. Por isso e por tantas outras coisas, eu, agora, passando por um  horizonte cravado de raios vermelhos, como uma despedida tardia da luz que já se foi, levando mais um dia que nunca se repetirá, reflito comigo mesma : que bom motivo este para realizar o meu melhor, para rastrear e encontrar este caminho e, depois de tudo, empenhar o meu melhor esforço... para construir um mapa. Isso é o ofício e o sonho dos aprendizes de filósofos, amantes de sabiás, de auroras e de vidas vividas sem pressa e sem pausa.

 

Lúcia Helena Galvão

Professora de Nova Acrópole Brasil

 

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