Pular para o conteúdo

image_05

O Anel de Giges

Anonimato, responsabilidade e justiça.

Conta Platão, no capítulo II de seu livro “A República”, que em época remota, na Lídia, um pastor de nome Giges encontrou um anel de ouro no dedo de um esqueleto humano gigante, após um terremoto, dentro de uma fenda que se abrira no solo, próximo ao local onde ele apascentava ovelhas.

O anel, ele logo descobriu, possuía o poder de tornar invisível quem o utilizasse (já vimos isso em outro lugar), e de acordo com a fábula, Giges, que era um homem comum até então, começou a fazer mal uso de seu novo poder, e perpetrou atos infames, até assassinar o rei da Lídia e ocupar seu lugar no trono.

Vemos, com esse mito platônico, que é bem antiga a atração pelo anonimato, por poder fazer o que se quer sem que ninguém saiba. É bem anterior às máscaras e à internet.

E o que se busca com o anonimato?

É bem evidente que quem busca o anonimato, em geral, salvo as exceções, o faz para não ter de se responsabilizar pelo que faz. Tem intenção de fazer algo que a sociedade e/ou ele próprio consideram ilegal ou moralmente reprovável, e por isso se esconde detrás de uma máscara, seja ela de plástico ou virtual. Trata-se, pois, de evitar a responsabilidade.

E refletindo sobre a responsabilidade, qualquer um de nós é capaz de perceber o valor desta virtude. Pois para qualquer coisa que precisemos de uma pessoa, gostaríamos de contar com alguém responsável, ou seja, alguém capaz de responder por seus atos, por seu trabalho, pelo que fala e pelo que faz.

Nenhum de nós aprecia o comportamento, seja de um funcionário, amigo ou parente, que, ante as dificuldades apresentadas por seus deveres ou falhas que tenha cometido, foge às suas responsabilidades; ou, o que é pior, que, premeditadamente, se utiliza da máscara a fim de que ninguém saiba que foi ele.

É assim no particular e é assim também no coletivo.

O caminho percorrido pela humanidade tem sido longo e árduo, e aprendemos a duras penas que o valor humano reside em nossa capacidade de agir em prol do bem comum, e não como no reino animal, em que o valor reside na capacidade de sobrevivência individual, segundo a lei do mais forte, tão bem expressa pela teoria evolutiva de Darwin.

Mas nós não somos animais, somos humanos. E acreditemos ou não em Deus e em um desígnio para nossas vidas, todos nós somos capazes de perceber que a vida só vale a pena com valores como bondade e justiça; e todos nós gostamos, e muito, de ser tratados com consideração e respeito por nossa forma de ser. E todos, absolutamente todos, queremos ser tratados com justiça.

E sabemos o que é justiça. E que não digam que se trata de uma convenção social, pois, se fosse, não calaria tão fundo em nós a sua falta. Porque, quando nos falta a justiça, a todos nos dói muito, assim como quando sentimos fome ou sede, mas muito mais grave (melhor trocar por “em grau muito maior”) . E a fome não é uma convenção social, mas algo intrínseco à nossa natureza, assim como a justiça, e por isso nos faz falta.

A justiça, como concluiu Platão em sua obra, é uma espécie de harmonia, é cada coisa em seu lugar, cumprindo com sua função da melhor forma possível, como em uma composição musical ou em uma obra artística de grande beleza, em que tudo se encontra inserido harmoniosamente no todo que compõe. Como em um corpo saudável, em que cada órgão e cada célula recebem o que lhes é próprio e cumprem com sua função, cada um com sua própria responsabilidade.

É próprio do ser humano buscar a justiça, devendo, portanto, também, buscar ser justo. E podemos perceber, numa breve reflexão como esta, que, na responsabilidade, temos um caminho para a Justiça.

É nosso dever, então, cuidar de sermos responsáveis, sabendo que é assim, e não no uso de algum “anel de Giges”, que contribuiremos para uma sociedade mais justa e uma vida mais feliz.

 

Jean Cesar Antunes Lima

Professor de filosofia em Nova Acrópole

 

Saiba mais sobre a Nova Acrópole, conheça nosso canal no Youtube:

Nova Acrópole no Youtube

Hoje trazemos um artigo escrito pelo professor Jean César Antunes, intitulado "A Solidão e seu Papel". Mais do que verdadeiro, é profundo e reflexivo. Acompanhem:

Solidao

A Solidão e seu Papel

Faz parte do viver nos sentirmos, com certa frequência,  solitários.

No passado, antes do advento da eletrônica, uma pessoa não tinha outro remédio que ficar só nos momentos em que não pudesse ter companhia, e então, sem ninguém mais para conversar, só podia ter a si mesma como companheira: seus pensamentos e sentimentos, suas dúvidas e seus medos, suas certezas e confianças.

Foi ao perscrutar seu interior, buscar em seu íntimo as respostas que lhes faltavam, que os grandes homens da história nos legaram a mais rica herança que poderíamos deles ter. Deram-nos o saber contido em suas obras, as mais belas histórias da literatura universal. Deram-nos também a poesia, a música,  a ciência, a legislação, e tudo mais que constitui nossa cultura e civilização.

Foi em momentos de solidão e inspiração que nasceram as mais belas composições. Foi também em visionária solidão que surgiram as mais inovadoras descobertas da ciência. E é na solidão, em nosso íntimo, que tomamos as mais importantes decisões de nossas vidas.

Hoje, cercados de aparelhos eletrônicos, de telas e teclados (ou sem teclados), estamos perdendo (ou perdemos) o costume de nos entregar a esses ricos momentos de inspiradora e produtiva solidão. Perdemos a prática de estar sós. E nos lançamos a uma desesperadora busca por estar sempre acompanhados, física ou virtualmente, por um sem fim de “amigos”, por estar sempre “conectados”. Ficamos entretidos com programas de TV, vídeos do YouTube, postagens no Twitter ou qualquer outra coisa que nos afaste da terrível solidão.

Muitos desses amigos não atendem exatamente à definição da palavra, sendo, portanto, uma grande perda de tempo o atender às suas demandas. Ao fugir desses importantes momentos (de solidão), jogamos fora muitas oportunidades que a vida nos oferece de encontrarmos respostas.

O Google pode nos trazer muitas respostas, e o Facebook nos conecta a inúmeras pessoas, e certamente têm o seu valor. Mas quem pode realmente nos levar à compreensão de nós mesmos? De que forma podemos saber se realmente estamos no caminho que devemos estar? Quais devem ser de fato nossas propostas de vida para que possamos ser felizes?

Não faltam exemplos, nas biografias de muitos, de que seu sucesso e  felicidade, em última instância, foram determinados por decisões cruciais, em momentos de grande introspecção e profunda reflexão sobre o que era realmente importante. E não se conseguem essas respostas “fora”. Essas respostas só podem ser encontradas “dentro”, pois não são as mesmas para pessoas diferentes, e somos todos, intimamente, diferentes.

A vida nos dá muitas pistas do que devemos buscar, mas é preciso refletir para compreendê-las; nos oferece muitas oportunidades, mas é necessário buscar no íntimo de nós mesmos o seu significado.

Se prestarmos atenção, veremos que aqueles que melhor souberam conviver com as demais pessoas, que melhor souberam compreender a vida, e a viver com intensidade e respeito por tudo e por todos, foram aqueles que aprenderam a lidar com a solidão, a decifrar seus enigmas, a desvendar os tesouros escondidos que ela guarda e que subjazem dentro de nós mesmos.

 

Jean César Antunes Lima

Professor de Filosofia em Nova Acrópole

 

Fique por dentro das últimas notícias de Nova Acrópole no Brasil e no mundo: www.acropolenews.org.br