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Amado Nervo

Alegra-te

Se tu és pequeno, alegra-te,

para que tua pequenez sirva de contraste

a outros no universo, porque essa pequenez

constitui a razão essencial da tua grandeza,

porque para ser grande,

há necessidade que tu sejas pequeno,

como a montanha para crescer,

necessita subir entre as colinas, lombas e os morros.

Se és grande, alegra-te,

porque o invisível se manifestou em ti

de maneira mais excelente,

porque és um êxito do artista eterno.

Se és saudável, alegra-te,

porque em ti as forças da natureza

tem chegado à ponderação e à harmonia.

Se és enfermo, alegra-te,

porque lutam em teu organismo

forças contrárias que acaso buscam

uma resultante de beleza,

porque em ti se ensaia esse divino alquimista

que se chama dor.

Se és rico, alegra-te,

por toda a força que o destino

tem posto em tuas mãos

para que a derrames...

Se és pobre, alegra-te,

porque tuas asas serão mais ligeiras,

porque a vida te sujeitará menos,

porque o Pai realizará em ti

mais diretamente que no rico,

o amável prodígio do pão cotidiano.

Alegra-te, se amas;

por que serás mais semelhante a Deus que os outros.

Alegra-te, se és amado;

porque há nisso

uma predestinação maravilhosa.

Alegra-te se és pequeno;
alegra-te se és grande;
alegra-te se tens saúde;
alegra-te se a perdeste;
alegra-te se és rico;
se és pobre, alegra-te;
alegra-te se te amam;
se amas, alegra-te.
Alegra-te sempre, sempre, sempre...


(Amado Nervo)

Kalil Gibran Filosofia Nova Acropole

A Razão e a Paixão

E a sacerdotisa adiantou-se novamente e disse: "Fala-nos da razão e da paixão".

E ele respondeu, dizendo:

-  Vossa alma é freqüentemente um campo de batalha onde vossa razão e vosso juízo combatem vossa paixão e vosso apetite.

Pudesse eu ser o pacificador de vossa alma, transformando a discórdia e a rivalidade entre vossos elementos em união e harmonia.

Mas como poderei fazê-lo, a menos que vós mesmos sejais também pacificadores, mais ainda, enamorados de todos os vossos elementos?

Vossa razão e vossa paixão são o leme e as velas de vossa alma navegante. Se vossas velas ou vosso leme se quebram, só podereis derivar ou permanecer imóveis no meio do mar.

Pois a razão, reinando sozinha, restringe todo impulso; e a paixão, deixada a si, é um fogo que arde até sua própria destruição.

Que vossa alma eleve, portanto, vossa razão à altura de vossa paixão, para que ela possa cantar, E que dirija vossa paixão a par com vossa razão, para que ela possa viver numa ressurreição cotidiana e, como a fênix, renascer das próprias cinzas.

Gostaria que tratásseis vosso juízo e vosso apetite como trataríeis dois hóspedes amados em vossa casa. Certamente não honraríeis um hóspede mais do que o outro; pois quem procura tratar melhor um dos dois, perde o amor e a confiança de ambos.

Entre as colinas, quando vos sentardes à sombra fresca dos álamos brancos, compartilhando a paz e a serenidade dos campos e dos prados distantes, então que vosso coração diga em silêncio: "Deus repousa na razão". E quando bramir a tempestade, e o vento poderoso sacudir a floresta, e o trovão e o relâmpago proclamarem a majestade do céu, então que vosso coração diga com temor e respeito: "Deus age na paixão". E já que sois um sopro na esfera de Deus e uma folha na floresta de Deus, vós também devereis descansar na razão e agir na paixão.

 

Kalil Gibran

Texto extraído do livro O Profeta